Flamengo de 2019: relembre o time que fez história
Poucos times brasileiros deste século conseguiram transformar uma temporada em algo tão marcante quanto o Flamengo de 2019. Em questão de meses, um elenco recheado de grandes jogadores encontrou em Jorge Jesus uma maneira de jogar agressiva, intensa e ofensiva — e terminou o ano com títulos e atuações que permaneceram na memória do futebol brasileiro.
Aquele Flamengo teve Gabigol como grande goleador, Bruno Henrique vivendo uma temporada extraordinária, Arrascaeta criando oportunidades, Everton Ribeiro organizando o jogo e Gerson e Willian Arão dando equilíbrio ao meio-campo. Na defesa, Diego Alves, Rafinha, Rodrigo Caio, Pablo Marí e Filipe Luís completaram a formação que se consolidou como referência da equipe. Essa escalação também foi a utilizada na histórica final da Libertadores contra o River Plate.
Mas a história daquele ano começou bem antes das grandes noites de novembro.
Um 2019 que começou de maneira muito diferente
O Flamengo iniciou a temporada ainda comandado por Abel Braga e conquistou o Campeonato Carioca. O elenco, porém, ainda passaria por mudanças importantes até chegar à formação que ficaria marcada na história.
Gabigol, Bruno Henrique e Arrascaeta haviam chegado para aumentar consideravelmente o poder ofensivo. Mais tarde, o clube reforçaria outros setores com nomes como Rafinha, Filipe Luís, Pablo Marí e Gerson.
Em junho, depois da saída de Abel Braga, o Flamengo anunciou Jorge Jesus. A chegada do português acabaria representando uma transformação na temporada.
O time passou a jogar com linhas mais altas, intensidade na recuperação da bola, laterais participativos e grande movimentação ofensiva. Willian Arão passou a desempenhar papel importante à frente da defesa, enquanto Gerson ajudava na construção e na chegada ao ataque.
Mais à frente, Everton Ribeiro e Arrascaeta encontravam espaços para abastecer Bruno Henrique e Gabigol.
Pouco a pouco, uma equipe muito difícil de enfrentar começou a aparecer.
O time que Jorge Jesus encontrou
A formação que se tornou símbolo daquele Flamengo era:
Diego Alves; Rafinha, Rodrigo Caio, Pablo Marí e Filipe Luís; Willian Arão, Gerson, Everton Ribeiro e Arrascaeta; Bruno Henrique e Gabigol.
Curiosamente, apesar de ter ficado marcada como a escalação ideal de 2019, essa formação começou junta apenas oito vezes naquele período, segundo levantamento posterior do ge. Foram seis vitórias, um empate e uma derrota — esta última diante do Liverpool no Mundial de Clubes.
A força daquele Flamengo, portanto, não estava apenas nos nomes.
Estava também na maneira como as peças se complementavam.
O trio que decidiu jogos
Na frente, três jogadores produziram números impressionantes.
Gabigol terminou 2019 com 43 gols, sendo 25 no Campeonato Brasileiro e nove na Libertadores. Bruno Henrique marcou 35 vezes, enquanto Arrascaeta terminou a temporada com 18 gols e 19 assistências.
Somados gols e assistências, os três tiveram participação direta em 109 dos 153 gols marcados pelo Flamengo durante o ano.
A visão de jogo de Arrascaeta foi uma das qualidades que marcaram aquele Flamengo. Para aprofundar essa leitura, confira nossa análise sobre Arrascaeta no Flamengo e entenda como sua movimentação, seus passes e suas chegadas à área ajudam a transformar posse de bola em perigo.
E ainda havia Everton Ribeiro, Gerson e os laterais participando constantemente da construção das jogadas.
Era um ataque que podia chegar ao gol de várias maneiras.
O Flamengo dispara no Campeonato Brasileiro
Enquanto avançava na Libertadores, o Flamengo começou a transformar o Brasileirão em uma campanha histórica.
A equipe assumiu a liderança e construiu uma sequência que os adversários não conseguiram acompanhar.
O Maracanã virou um dos símbolos daquela caminhada. Com estádio cheio e futebol ofensivo, o Flamengo acumulava vitórias enquanto aumentava sua vantagem na liderança.
Ao final das 38 rodadas, o clube terminou com 90 pontos e 86 gols marcados, estabelecendo marcas importantes na era dos pontos corridos com 20 clubes.

Mas paralelamente ao domínio nacional, havia uma obsessão que atravessava gerações de torcedores.
A Libertadores.
O Flamengo não conquistava o torneio desde 1981.
A Libertadores começa a ganhar contornos dramáticos
O caminho até a decisão esteve longe de ser tranquilo.
Nas oitavas de final, o Flamengo perdeu para o Emelec por 2 a 0 no Equador e ficou diante de uma situação complicada.
No Maracanã, devolveu o placar e levou a decisão para os pênaltis.
Diego Alves apareceu. Ele que mais tarde encerraria a carreira profissional e iniciaria uma nova fase longe dos gramados, teve papel importante naquela classificação. [Veja por onde anda Diego Alves e o que o ex-goleiro faz atualmente].
O Flamengo avançou.
Nas quartas, o adversário foi o Internacional. Depois de vencer por 2 a 0 no Maracanã e empatar por 1 a 1 no Beira-Rio, o Rubro-Negro chegou às semifinais.
E o adversário seria brasileiro.
O Grêmio.
Flamengo 5 x 0 Grêmio: uma noite que entrou para a história
O primeiro confronto, em Porto Alegre, terminou empatado por 1 a 1.
Tudo seria decidido no Maracanã.
Em 23 de outubro de 2019, Flamengo e Grêmio entraram em campo para definir quem disputaria a final da Libertadores.
O que aconteceu naquela noite se tornou uma das atuações mais lembradas daquele time.
Flamengo 5 x 0 Grêmio.
Bruno Henrique abriu o placar. Gabigol marcou duas vezes. Pablo Marí e Rodrigo Caio completaram a goleada.

O Flamengo estava novamente em uma final de Libertadores depois de 38 anos.
E do outro lado estava o então campeão da América.
O River Plate.
Lima: 90 minutos para mudar a história
A final originalmente seria disputada em Santiago, no Chile, mas acabou transferida para Lima, no Peru.
Em 23 de novembro de 2019, Flamengo e River Plate entraram no Estádio Monumental para disputar a primeira final em jogo único da história da Libertadores.
O River saiu na frente.
Rafael Santos Borré marcou ainda no primeiro tempo, e durante grande parte da partida os argentinos conseguiram administrar a vantagem.
O relógio avançava.
O sonho rubro-negro parecia escapar.
Até os minutos finais.
Porém, aos 44 minutos do segundo tempo, Bruno Henrique iniciou uma jogada que terminou com Arrascaeta servindo Gabigol.
1 a 1.
Pouquíssimo tempo depois, Gabigol apareceu novamente.
2 a 1.
Em poucos minutos, uma final praticamente perdida havia sido transformada em título.
Depois de 38 anos, o Flamengo voltava a conquistar a Copa Libertadores.

Um fim de semana inesquecível para o torcedor
A conquista continental ainda produziu uma situação incomum.
No dia seguinte à final da Libertadores, o Flamengo também foi matematicamente confirmado campeão brasileiro sem precisar entrar em campo, depois da derrota do Palmeiras para o Grêmio.
Em aproximadamente 24 horas, logo o clube celebrou os dois maiores títulos de sua temporada.
Libertadores e Brasileirão.
O Flamengo terminaria o campeonato nacional com números que colocaram especialmente aquela campanha entre as mais marcantes da era dos pontos corridos.
Gabigol e a imagem eterna de um Flamengo de 2019
Se existe um personagem inevitavelmente associado àquele ano, é Gabigol.
O atacante terminou como artilheiro tanto do Brasileirão quanto da Libertadores e,além disso, marcou os dois gols da virada na final continental. Seus 43 gols na temporada representaram a maior produção ofensiva individual daquele elenco.
Mas reduzir aquele Flamengo somente ao seu camisa 9 também seria injusto.
Bruno Henrique foi decisivo durante toda a temporada. Arrascaeta forneceu criatividade e gols. Everton Ribeiro ajudou a controlar partidas. Gerson acrescentou força e qualidade técnica. Arão encontrou uma função fundamental no sistema de Jorge Jesus.
Rafinha e Filipe Luís deram experiência às laterais, enquanto Rodrigo Caio e Pablo Marí formaram a dupla de zaga mais característica daquele período.
E Diego Alves continuou decisivo quando o Flamengo precisou dele.
Diego: o capitão que também fazia parte daquela história
Outro personagem importante era Diego Ribas.
Uma lesão grave no tornozelo sofrida contra o Emelec afastou o meia durante parte importante da campanha. Mesmo assim, Diego conseguiu retornar antes do fim da Libertadores e entrou durante a decisão contra o River Plate.
Anos depois daquela conquista, Diego encerrou a carreira e iniciou uma nova trajetória fora dos gramados. Veja também: Por onde anda Diego Ribas?
O Mundial e o reencontro com o Liverpool
A conquista da Libertadores levou o Flamengo ao Mundial de Clubes no Catar.
Na semifinal, o clube derrotou o Al-Hilal por 3 a 1.
Na decisão estava o Liverpool.
O confronto carregava uma enorme carga histórica por causa da vitória rubro-negra sobre o próprio Liverpool no Mundial de 1981.
Dessa vez, a partida permaneceu empatada durante os 90 minutos. Na prorrogação, Roberto Firmino marcou e garantiu a vitória inglesa por 1 a 0.
Foi a única derrota da formação considerada ideal do Flamengo de 2019 nos oito jogos em que aqueles onze jogadores começaram juntos.
Uma temporada de glórias, mas também de profunda tristeza
Qualquer retrospectiva responsável sobre o Flamengo em 2019 precisa registrar que aquele ano também ficou marcado por uma tragédia muito maior do que o futebol.
Em 8 de fevereiro, um incêndio atingiu o alojamento das categorias de base no Ninho do Urubu. Dez jovens jogadores morreram e três ficaram feridos. A tragédia marcou profundamente o clube, as famílias e o futebol brasileiro.
É um acontecimento que merece ser lembrado com respeito, sem misturá-lo à celebração das conquistas esportivas.
Por que o Flamengo de 2019 ficou marcado?
Os títulos explicam parte da história.
Mas não toda.
Aquele Flamengo combinou resultados com uma identidade de jogo muito clara. Atacava, pressionava, assumia riscos e frequentemente buscava ampliar o placar mesmo quando já estava vencendo.
Jorge Jesus encontrou um elenco tecnicamente forte e conseguiu construir uma equipe na qual jogadores de características diferentes funcionavam de maneira complementar.
E algumas imagens daquela temporada atravessaram o tempo: o Maracanã lotado, a goleada sobre o Grêmio, Gabigol levantando a Libertadores em Lima e a festa da torcida no retorno ao Rio de Janeiro.
Um time que entrou para a história
O Flamengo de 2019 terminou a temporada com Campeonato Carioca, Campeonato Brasileiro e Copa Libertadores.
Mais importante para sua memória esportiva, porém, foi a maneira como conquistou esses títulos.
Diego Alves; Rafinha, Rodrigo Caio, Pablo Marí e Filipe Luís; Willian Arão, Gerson, Everton Ribeiro e Arrascaeta; Bruno Henrique e Gabigol.
A escalação ainda é lembrada anos depois porque representa uma equipe que encontrou seu auge em um intervalo relativamente curto.
Sob o comando de Jorge Jesus, o Flamengo voltou ao topo da América, dominou o Campeonato Brasileiro e produziu algumas das noites mais marcantes de sua história recente.
2019 deixou de ser apenas um ano no calendário rubro-negro. Virou um capítulo da história do futebol brasileiro.







